segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Sobre mortes estúpidas

Pessoas nascem e morrem todos os dias. Aos milhares, e de todas as maneiras possíveis e imagináveis, que possa inventar a criatividade do Zé Maria, aquela figura simpaticíssima de capa preta e foice reluzente. As pessoas nascem estupidamente, abandonadas em cestos de lixo, entregues à própria sorte. Mas e morrer de forma estúpida? Tem sido cada vez mais comum homens e mulheres morrerem do nada e por nada. Ou por muito pouco.

Do ano passado eu me lembro de pelo menos dois casos. O primeiro se trata do fuzileiro naval que morreu na festa de seu próprio casamento. Havia uma taça no bolso do terno, o sujeito caiu e esta se estilhaçou, atingindo a veia femural (seria artéria, mas foi assim que certificaram sua morte). O cara sangrou até morrer. Na festa de núpcias? Isso para mim é um jeito muito estúpido de deixar este plano.

O segundo caso também foi com um marinheiro. Ele e sua noiva desaparecerem. Procura daqui, procura dali... encontraram o casal seminu dentro do carro do rapaz, na garagem da casa onde iam morar após o casamento, já com data marcada. Segundo consta, morreram envenenados por monóxido de carbono que o próprio carro produzia. A título de informação, na intoxicação por esse gás, o indivíduo tem sonolência, desmaia e morre. Morreu fazendo amor com a noiva. Vejam que irônico: logo os marujos que tem fama de mulherengos, não morreram na esbórnia, morreram com suas mulheres.

Logo no início desse ano teve o caso do pedreiro cujo carro quebrou na ponte Rio-Niterói. Fez tudo certinho: triângulo à ré e foi à frente do carro examinar sob o capô. Foi surpreendido por um caminhão que atingiu o veículo, atirando-o pela ponte. Seu corpo foi encontrado no mesmo dia, nas proximidades da Ilha Fiscal, local do último baile do Império. Mulher e filha que estavam dentro do carro nada sofreram.

O mais recente caso de morte estúpida aconteceu em Santa Maria-RS, no último dia 26. Mas as proporções foram muito maiores, os mortos passam de 230. O que choca é o número tão elevado de óbitos e as circunstâncias em que ocorreram. Uma boate com cerca de 800 pessoas (a maioria jovens) se incendiou. Houve tumulto na fuga e dezenas de pessoas morreram pisoteadas e asfixiadas. Aqui a estupidez grita na ausência do poder público, em que pese a ausência do alvará de funcionamento (vencido); na superlotação da casa noturna; na saída de emergência insuficiente para o quantidade de pessoas; nos extintores de incêndio que não funcionaram; na falta de indicação das saídas da casa... Sem esses erros, a maioria das mortes teriam sido evitadas.

O certo – e ninguém poderá questionar isso – é que as pessoas vão continuar morrendo – estupidamente, ou não – aos milhares, todos os dias. O que não se pode aceitar é que as pessoas continuem morrendo de forma tão banal, tão sem sentido. Do nada e por nada. É bem verdade que em muito casos as mortes são fatalidades, mas em Santa Maria não foi isso que aconteceu. Foi uma sucessão de pequenos erros que culminou num erro muito grande. Agora, os governos vão fiscalizar um monte de casa noturna – ninguém quer ter o nome ligado a uma tragédia dessas – até que se esqueça o assunto (alguém lembra dos viciados em crack do Rio de Janeiro?) “Para morrer, basta estar vivo”, e sendo assim, devemos fazer de tudo para evitar que mais mortes estúpidas aconteçam. Porque lá na boate Kiss podia ser sua filha, seu irmão, eu e você.

George dos Santos Pacheco

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A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

Aniversário da Revista Pacheco: Cinco anos de Literatura, Arte e Cultura

Em setembro de 2009 Revista Pacheco foi criada pelo escritor George dos Santos Pacheco para divulgar seus textos, notícias sobre músicas, filmes e curiosidades. Mas aos poucos foi se tornando uma revista virtual voltada à publicação de conteúdos sobre Literatura, Arte e Cultura em geral, com especial enfoque à Literatura, publicando textos de diversos escritores, proporcionando um espaço para os novos autores e divulgando contos, crônicas e poesias de autores clássicos da Literatura Brasileira e Internacional.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.

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